Internet e Jornalismo: o cidadão, as redes sociais e as rotinas jornalísticas

O painel 2C contou com a participação de Daniel Catalão, Pedro Jerónimo, Taianne Gomes e Valquíria Kneipp.

Mais de metade dos conteúdos gerados pelos cidadãos não são identificados pela televisão pública em Portugal. Esta é uma das conclusões do estudo apresentado por Daniel Catalão: “Da extração à participação: caminhos para a inclusão dos internautas no jornalismo televisivo de serviço público”. Para além disso, a maior parte desses conteúdos não são entregues diretamente pelo criador, mas extraídos na internet ou obtidos através de agências internacionais.

O investigador identificou o paradoxo de existirem mais conteúdos gerados online mas haver menos identificação de quem os produz. “Os créditos não existem, esbatem-se em afirmações genéricas como, por exemplo, “imagens Youtube” e o ciberespaço está a tornar-se numa terra sem dono, o material é recolhido e usado de forma completamente arbitrária”. O jornalista referiu-se à internet como “um cesto de fruta, onde se vai buscar tudo de forma gratuita.”

Daniel Catalão explicou que a televisão se tem apropriado do ciberespaço, onde os conteúdos produzidos pelo cidadão se encontram na sua maioria. Foi a transformação provocada pela dupla “smartphone e banda larga móvel” que permitiu que cada pessoa se tornasse uma testemunha de momentos “potencialmente noticiáveis” e de fácil partilha.

Apesar desta proatividade dos cidadãos, a validação é sempre feita por um jornalista que, para o ser, tem que ter carteira profissional. “Um repórter não profissional é diferente de um jornalista. Tal como dar um comprimido a alguém não é fazer medicina. Fazermos vídeos e contar essas histórias não é fazer jornalismo.”, diz o investigador.

“Nós estamos a gerar algum caos, há aleatoriedade das decisões, faltam orientações à criação de regras internas e genéricas, há uma ausência de títulos padronizados, há um incumprimento dos códigos de procedimento profissional.”, alertou o investigador.
Temos, assim, um elevado nível de acesso quer à produção quer à receção dos conteúdos do cidadão, mas isto não se traduz em interação ou participação. Não há um envolvimento entre jornalistas e cidadãos, não há engagement. Muitas vezes o produtor do conteúdo nem é consultado.

“Assume-se que o jornalismo é feito por jornalistas, porém pela imposição do ciberespaço, estaremos a viver a confirmação do espaço do jornalismo participativo, dependente de fontes ativas esquivas à mediação” afirma Daniel Catalão.

O jornalista da RTP concluiu com um apelo: é necessário meditar e agir sobre este assunto, porque há muita confusão em relação às regras de utilização dos conteúdos do utilizador na televisão, pública e privada.

A televisão brasileira no Facebook
Taianne Gomes e Valquíria Kneipp apresentaram o estudo “A presença da webnotícia e de conteúdos transmídias no Facebook dos telejornais de maior audiência da Rede Globo”. Uma análise sobre dois canais de televisão brasileiros e a sua utilização das redes sociais como meio informativo.

Uma pesquisa de dois anos que pretendeu entender “Como os telejornais se estão a apropriar, como é que estão a usar as redes sociais, como estão a criar este universo?”, referiram as oradoras. Esteve em causa a apropriação dos conteúdos da televisão para as redes sociais.

Se a televisão já tem as componentes multimédia do áudio e do vídeo, como fazer para captar a atenção do público, que novidade lançar? Esta foi uma das perguntas que surgiram durante a apresentação.

Algumas das soluções apresentadas passam pelo uso do hiperlink, criar conteúdo para a rede social, não copiar apenas o que é usado na estação de televisão e usar técnicas como trazer o público para os bastidores do meio.

“Não existe um trabalho especifico geral para o Facebook, usam as redes sociais de forma incipiente de forma a transbordar o seu conteúdo de forma estratégica.”, concluíram as convidadas.

A internet na imprensa regional
“Jornalistas da imprensa regional na era digital: Perceções sobre a influência da internet e dos dispositivos móveis no exercício do jornalismo” foi o tema exposto por Pedro Jerónimo, professor no Instituto Superior Miguel Torga.

“Poderíamos estar em maior contacto com o público, mas não nos relacionamos com ele”, foi uma das principais conclusões desta apresentação. Apesar da distância entre jornalistas e cidadãos se sentir nos grandes jornais, estações de televisão e rádios, também nas regiões mais pequenas o problema verifica-se. Os jornalistas usam a internet principalmente para pesquisar e contactar fontes, o mesmo sucedendo com os dispositivos móveis, aos quais acresce o ato de fotografar. Porém, aquela ferramenta que ocupa tempo nas rotinas jornalísticas não aproxima jornalistas e cidadãos.

O orador explicou que ainda há um longo caminho para percorrer em relação ao papel da internet nas redações regionais, porque muitos dos jornais têm tradições e processos de trabalho muito enraizados. “Primeiro o papel e só depois o online”, referiu Pedro Jerónimo, acrescentando que é muito raro encontrar conteúdos pensados primeiramente para o ambiente digital.

“Quando é que os órgãos de comunicação nacionais precisam das pessoas, quando é que lhes dão importância? Se houver umas cheias, se houver um acidente, quando precisam”, referiu Daniel Catalão, no breve espaço para discussão no final do encontro. A negligência, a falta de regras definidas, de diálogo e de partilha de informação foram apontados como os principais fatores de uma quebra da ligação entre jornalistas e cidadãos.

Por Beatriz Carneiro (CC, 3.º ano)

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