Jornalistas: os últimos rebeldes

O jornalismo não está morto, está a evoluir. Mark Deuze falou sobre “media start-ups” e sobre o que é preciso para que os novos jornalistas, mais do que sobreviver, tenham sucesso no meio. Foi a conferência de abertura do quinto Congresso Internacional de Ciberjornalismo, a decorrer na FLUP.

Foi a primeira vez que Deuze apresentou o seu mais recente trabalho de investigação “Beyond Journalism: Entrepreneurial (Online) Journalism Around the World”. O professor holandês sublinha que a pesquisa ainda está numa fase inicial, mas que os resultados dão para “começar uma discussão”.

“Sabemos que o jornalismo já não importa” quando, diz o investigador, todos os meios de comunicação apoiaram Hillary Clinton nas eleições norte-americanas, mas o vencedor, Donald Trump, recebeu “mais atenção mediática” através do seu Twitter. Se, por um lado, isto prova que as pessoas já não confiam tanto nos jornalistas, mostra também um pouco da “história de inovação” no meio, um dos pontos principais na intervenção.

Atualmente, o jornalismo está numa fase “pós-industrial”. Apesar disso, “os jornais e os programas de televisão ainda são feitos da mesma forma” e urge a necessidade de se “adaptarem ao presente”. Com base na “visão otimista do futuro e do jornalismo do futuro” trazido em “The future of journalism: networked journalism”, Mark pergunta “o que raio é que networked journalism quer dizer?” e “onde é que acontece este jornalismo?”. Foi assim que chegou às novas organizações e empresas de media.

Estas startups fazem “jornalismo de uma forma diferente”, quer seja em “termos de modelo de negócio, newsgathering, formas e fomatos de storytelling, relação com a audiência e método de distribuição”. Nos “novos modelos de negócio”, já “não há realmente uma parede [entre o jornalismo e o marketing]”. As startups “fazem negócios, tentam vender-se a si mesmas”.

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Mark Deuze esteve presente, por videochamada, no primeiro COBCIBER, em 2008.

Deuze realça três pontos relativamente aos novos empreendedores no jornalismo: Precariedade, fazer acontecer, e motivações e objetivos. Salienta ainda que, durante a pesquisa, ninguém nestas empresas mencionou a crise ou a economia. Fala antes de “motivação social, motivação cultural e motivação tecnológica”. E é com a tecnologia que estabelece a grande diferença em relação aos jornalistas atuais. Enquanto uns veem os avanços tecnológicos como “um brinquedo novo”, os outros usam-no por obrigação. “Eles não acreditam no online, eles têm de fazer online”.

Nestas novas startups há também uma maior “preocupação ideológica” ao mesmo tempo que há uma “libertação do controlo corporativo”. A necessidade de fazer este novo jornalismo surge da “insatisfação do público”, da “frustração dos jornalistas”, da “competição”, “de uma leitura pura da ideologia do jornalismo” e da “paixão” pela profissão.

Mark Deuze conclui com uma ideia clara: a precariedade histórica da profissão também está presente nas novas startups e, apesar de ser muito otimista em relação às possibilidades e oportunidades que o avanço tecnológico traz, admite que há preocupações a serem tidas em conta.

Então, “quão significante é pensar em negócios, quando falamos de jornalismo?”. “Muito”, mas na verdade, o que importa, é que o jornalismo se mantenha “rebelde”.

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“Eu quero que o jornalismo de hoje esteja muito irritado com o mundo. O jornalismo de hoje deve lutar. Os jornalistas são os derradeiros rebeldes.”

“Estamos no tempo dos jornalistas 3.0”

Deuze acha que nos próximos anos não vão ocorrer mudanças drásticas, mas que dentro de 20 anos vamos “assistir ao fim da imprensa e da televisão”. “Ainda vamos ver notícias escritas e histórias em imagens que se movem”, esclarece, “mas não vão estar só em jornais ou num ecrã de televisão”.

Quanto a haver ou não dinheiro para o jornalismo, o investigador diz que há, “mas é dinheiro incerto”. Os “modelos de negócio mudam de ano para ano”, o que obriga a “pensar constantemente em maneira de gerar lucro”, e isto assusta os jornalistas que “não sabem e não gostam de pensar nisto”.

Por Luísa Correia e Renata Monteiro (CC, 3º ano)

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